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Reflexões e Pensamentos
Viagem ao Nordeste
Fernando de Noronha -
Sempre achei que os paulistas deveriam conhecer o Nordeste.
Desde criança, ouço histórias tristes sobre a pobreza, a fome, a desnutrição e a corrupção que grassa há muitos anos naquela região. Ouvi de meu avô, engenheiro do Estado de São Paulo, que seu irmão mais moço, tio Maneco ? também engenheiro, formado pela antiga Escola Militar do Largo de São Francisco, no Rio de Janeiro, depois Escola Politécnica, Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil, onde, assim como meu avô, meu pai, meu tio, meu primo, também me formei ? foi nomeado o primeiro diretor do então recém-criado Departamento Nacional de Obras Contra as Secas(DNOCS). Por volta de um ano após ter assumido o cargo, ele se demitiu do serviço público. Coisa por demais rara naquela época, e ainda hoje, eu diria.
Era ainda o final do século XIX. Dizia-se na família que meu tio-avô não pôde suportar o famigerado ?coronelismo?.
Por essas e por outras razões, o Nordeste deve merecer nossa atenção, nosso apreço e também nossa admiração.
Veja-se a expulsão dos holandeses, a conquista do Acre, feita basicamente por cearenses. Veja a enorme projeção do nordestino na cultura brasileira: na literatura, na sociologia, nas artes plásticas, na música. Nomes que vão do ramancista José de Alencar, dos poetas Gonçalves Dias e Souzândrade, do abolicionista Joaquim Nabuco, do sociólogo Gilberto Freyre ? e sua notável Casa-Grande e Senzala ?, àqueles ligados ao romance regionalista de cunho universal, como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, José Américo do Amaral, Rachel de Queiroz; a poesia de João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar; a dramaturgia de Ariano Suassuna. Afora a grande inventividade da literatura de cordel, do repentismo, das bandas de pífaros, da musicalidade expressa em ritmos como o frevo, o maracatu, o baião, o xote. A enorme vitalidade com que o povo nordestino improvisa o canto e a vida, não obstante a seca, a pobreza, a injustiça.
Pois bem, lá pelos idos do verão de 1972, peguei minha família e embarcamos para Cabedelo, em João Pessoa. Lá havia um hotel novo, recém-inaugurado na beira da praia. Em frente, um boteco de pescadores, muito simples, mas com bons petiscos e cerveja geladíssima. Impressionou-me o anúncio nas paredes: ?Aqui alugam-se banhos?! O nome era ?Boteco do Patrício?.
Entre os clientes, um mulato jovem, forte, conhecido como ?Sapo?. Excelente pessoa. Pescador de mergulho, contava histórias o tempo todo, histórias do mar, de pescarias, umas verídicas, outras fruto de sua pródiga imaginação...
Como eu também praticava a pesca de mergulho, brincava muito com suas lorotas e casos verídicos, até que um dia ele nos convidou para mergulharmos num navio afundado na barra de Cabedelo. Aluguei uma traineirinha e certa manhã lá fomos nós, eu e minha família, com o Sapo.
Mal tínhamos transposto a arrebentação, o enjôo começou! Só ouvi choros e lamúrias: ?Eu vou morrer! Pelo amor de Deus, pai, vamos voltar!?
Voltei, deixei a família toda na praia e retornei com o Sapo.
Chegamos no tal ponto em mar aberto onde o Sapo dizia ter no fundo o tal casco. Ele mergulhou e após um bom tempo (que fôlego!), confirmou que estávamos no lugar certo. Mergulhei em seguida e, para meu assombro, vi bem no fundão um casco no meio de uma escuridão. Devia estar a uns 20 a 30 metros. A profundidade era muita para mim. Fiquei a uma distância de 10 a 15 metros olhando os mergulhos do Sapo.
De repente, observo Sapo muito excitado fazendo sinais para eu subir com ele. Mergulhávamos no ?peito?, sem auxílio de oxigênio.
Na traineira, Sapo diz ter visto um mero enorme, de uns 100 quilos! O peixe teria fugido para um dos porões do casco e o Sapo queria que eu o ajudasse a arpoar o bruto e a puxá-lo para fora. Deixei claras minhas limitações, mas me dispus a fazer o possível para ajudá-lo. E assim foi. Mergulho pra cá, mergulho pra lá, e finalmente Sapo arpoa o mero.
Dentro d?água pareceu-me um peixe enorme. O bruto nadava para lá e para cá como se não tivesse um arpão atravessando seu corpo próximo às guelras. Nosso esforço era para não deixá-lo voltar para dentro do casco. Conseguimos!
Embarcado o mero, a pressa era chegar logo à praia para mostrar o grande feito.
Quando chegamos à praia de Cabedelo, o povão começou a se aproximar e a admiração era total. Deixei claro que os méritos, bem como o peixe, eram do Sapo. Em minutos, a imprensa estava presente, o peixe bem vendido e, pasmem!, virou fotografia de primeira página no principal jornal de João Pessoa.
Mas tínhamos outros objetivos na Paraíba.
Na escola de fotografia Enfoco, no prédio da Rua Batatais, em São Paulo, onde eu e minha mulher havíamos estudado, conhecemos a fotógrafa e professora Maureen Bisilliat, que nos impressionou vivamente. Além de seus conhecimentos fotográficos e rara sensibilidade, tinha uma coleção preciosa de fotos suas. A série chamada ?As Mulheres Caranguejeiras? nos impressionou sobremaneira. Esta série foi a primeira obra fotográfica brasileira adquirida pelo famoso MoMa (Museum of Modern Art) de Nova York.
Maureen havia tirado as fotos no Anel do Brejo, na região de Bayeux, hoje na Grande João Pessoa, mas em 1972 considerado bem longinho de Cabedelo.
Lá fomos nós, carregados de apetrechos, lentes, zoom, etc.
Ao chegarmos não sei bem onde, de manhãzinha, deparamos com algumas mulheres e poucos homens preparando-se para entrar no mangue.
A mulherada toda vestida de trapos, com suas roupas enroladas em trouxas que elas carregavam no topo da cabeça. Carregavam também um cesto e uma latinha de onde saía uma fumaceira espessa e danada de escura. Perguntei para que finalidade aquela fumaça. Elas responderam, achando muita graça, que, se não tivéssemos nosso fumageiro, em breve seríamos devorados pelos mosquitos.
Fomos aprendendo e adentrando o mangue. Que dificuldade para andar naquele lodo maciço, cinza-escuro, pegajoso e escorregadio!
A mulherada andava como borboletas adejando flores. E com que rapidez! Introduzia a mão no lodo e tirava um caranguejo, enfiava outra vez e trazia um peixinho muito apreciado, e assim iam, rindo, cantando, brincando.
Essa imagem ficou vivamente gravada em minha mente para sempre.
Quando leio os vários retratos do Brasil, sinto muita distância do verdadeiro povo brasileiro. Achamos que fomos roubados no nosso ouro, no pau-brasil, nas esmeraldas e tantas outras riquezas.
É verdade. Mas poucos, muito poucos, sabem identificar que a nossa maior riqueza não é ?roubável?. Nossa maior riqueza é o nosso povo, como ele é, pobre, ignorante, subnutrido, mestiço, branco, índio, negro, amarelo, católico, candomblé, umbandista, evangélico, muçulmano, atleta, medalha de ouro olímpica, cientista desbravador do DNA, banqueiro e capitalista, descobridor do avião, maior produtor mundial de açúcar, de café,de carne bovina, carne de frango, minério de ferro, soja, suco de laranja, aviões de meia distância, e muito mais.
Estes somos nós.
País que elege um Lula para presidente, um Lula nordestino, um Lula metalúrgico, um Lula cuja história se confunde com a história do nosso povo.
Estes somos nós, os brasileiros.
Após a experiência do brejo, comecei a arranjar novas aventuras.
No Boteco do Patrício, alguém sugeriu irmos a Fernando de Noronha.
Eu conhecia muito bem o general comandante do Nordeste. Como naquele tempo Fernando de Noronha era território sob jurisdição do Exército, e o acesso só se dava por aviões da Aeronáutica, achei que o general poderia me quebrar o galho e arranjar passagens para meus três filhos mais velhos e um parente de minha mulher. Surpresa! Ele foi categórico ao dizer ser impossível obter vagas nos aviões e quartos nas barracas deixadas pelos americanos após a guerra.
Decepção total.
No dia seguinte, no Boteco do Patrício, comentei minha frustração.
Pois o Patrício me disse que ele poderia resolver meu problema! Iria falar com um compadre seu, amigo do sargento da Aeronáutica responsável por embarcar a turma de Natal para Fernando de Noronha. O seu compadre iria interceder junto ao sargento para que pudéssemos embarcar.
Não acreditei na conversa, pois o meu general era o todo-poderoso, e meu amigo!
No mesmo dia, o Patrício informou que estava tudo arranjado e que eu deveria estar no aeroporto, em Natal, às quatro e meia da madrugada para embarcar. Lá fomos nós.
Tudo certo, entramos na fila e embarcamos.
Chegamos às ilhas do arquipélago de Fernando Noronha, maravilhados pela natureza, pela cor do mar, pelos picos vulcânicos. Uma das ilhas do arquipélago, era de formato achatado, mais parecida com um queijo-de-minas. Nem reparamos no desconforto dos chalés do exército americano. Tudo caindo aos pedaços.
Refeições em refeitório comunitário, comida apenas passável, mas nada disso importava.
Estávamos loucos para pescar!
Ficamos conhecendo um tal de Bio da Guarda. Parece que ele era carcereiro do velho presídio, já desativado. Como não tinha muito o que fazer, e para ganhar uns trocados, praticava seus bicos acompanhando os poucos turistas que queriam pescar no arquipélago de Noronha. Era um tipo impressionante, baixo, troncudo, muito forte, cabeça grande, mãos e dedos enormes e cobertos por um tipo de pele que mais parecia um couro.
Marcamos para o dia seguinte a pescaria. Foi maravilhoso. Pescamos cações de linha (ai, que falta fez o couro grosso das mãos do Bio!).
Mergulhamos só para ver a beleza dos peixes, milhares deles, de todos os tamanhos, cores, espécies. Num mergulho, vi passar a uns 500 metros um cardume de cações, que sem exagero devia se compor de uns 300 bem criados peixões.
Espetacular, maravilhoso, indescritível!
Bio nos preveniu de nunca mergulharmos sem um companheiro ao lado. Num lajeado de uns cinco metros de profundidade, mergulhamos juntos. A correnteza, muito forte em mar aberto, foi nos afastando sem que percebêssemos. Quando dei por mim, estava sozinho, do outro lado da laje, e os companheiros tinham voltado para a traineirinha. Havia muita barracuda, que no Brasil não ataca como na Flórida. De repente, saiu de lá das profundezas um cação graúdo. Vinha ziguezagueando em minha direção. O medo é uma realidade palpável, despeja no sangue uma grande quantidade de adrenalina. Perdi forças e temi afogar-me. Nisso, o cação começa a rondar em círculos que pareciam estreitar-se à minha volta. Não sei bem como reagi, só sei que me senti desacorçoado e apavorado. Numa certa hora, com ele já bem pertinho de mim, cutuquei o corpo do bruto com a ponta do arpão. Cação também tem medo, não sei se tem adrenalina... Assustou-se e se mandou para as profundezas.
Tentei voltar para o barco. Nadei contra a correnteza e, cada vez mais cansado, pensei que iria me afogar. Berrei por socorro, gritei, xinguei, gesticulei, e as respostas eram gargalhadas e "bananas" dadas para mim. Finalmente subi no barco, semimorto, e palavreando nomes feios no mais completo vocabulário.
Quando passeávamos a pé pela vilazinha, ouvi alguém me chamar pelo nome. ?Uai, quem poderá ser por aqui?? Pára um jipe e desce um sujeito de rosto conhecido que não consigo identificar ? fato, aliás, muito recorrente em minha vida. Ele se apresenta como Coronel de Tal, comandante de Fernando de Noronha. Lembra que fomos do governo Castello Branco e que ele era da Casa Militar. Então, veio tudo de volta à memória. Como eu era o mais moço no Ministério, 37 anos, a turma de tenentes, capitães e majores brincava muito comigo, principalmente porque eu era metido a lutar caratê.
Após um longo papo e recordações mil, perguntou-me se eu gostaria de, no dia seguinte, dar uma volta de jipe pela ilha. Claro que sim!
Às nove horas me apanhou e tocamos a subir morro, descer morro.
Conversamos a valer, lembramos dos bastidores do AI-2, das fofocas, daquele fulano que pôs escuta no telefone do Presidente para ouvir um célebre namoro platônico por vias telefônicas interurbanas para o Nordeste. O tal fulano não durou doze horas. Havia o famoso Capitão Sombrinha, Heitor de Aquino, por quem todos tinham respeito e um certo medo. Conversamos até não mais poder.
De repente, num fim de curva, descida íngreme, vejo aquilo que não acredito estar vendo. Claramente, numa gloriosa manhã de sol, intenso sol de antes do meio-dia: ali estava: um campo de concentração. Isso mesmo. Campo de Concentração. Igualzinho àqueles dos filmes da Segunda Guerra. Só faltava a suástica nazista. Igualzinho: com os rolos de arame farpado, as torres altas de vigilância, os galpões. Tudo, sem tirar nem pôr. Perdi a fala.
O coronel me diz então que aquilo felizmente nunca chegou a ser usado. Foi concebido para prisioneiros políticos. Quem mandou fazer era bem conhecido, mas a notícia teria se espalhado pelo corpo de oficiais do Exercito e a oposição ao uso de tal instrumento foi tão forte que os superiores acharam por bem não usar o ?maldito-cujo?.
Anos depois, indaguei de alguém a quem eu julgava estar a par de tal fato. Respondeu-me que, pelo que soubera, tudo havia sido demolido, apagado. Nunca encontrei ninguém que dissesse ter conhecimento de tal monstruosidade. Mas que eu vi, vi, isto lá é certo, vi muito bem visto. Asseguro.
Pergunto-me que retrato de Brasil isso representa.
Tivemos dois Impérios medíocres submissos à vontade da Inglaterra. Nossa Proclamação da Republica foi ato para pouca assistência, sem participação popular, sem muita convicção. Foi coisa do Benjamin Constant e dos positivistas da Escola Militar do Largo de São Francisco.
A Guerra do Paraguai, depois de Duque de Caxias, precisa ser reescrita.
A grande figura do Império, Barão de Mauá, talvez a maior do Brasil até hoje, faliu, porque ousou desafiar os hábitos da Corte.
A Velha República não traz motivos de grande orgulho. Tem muito estado de sítio, pagamento de dívidas suspeitas, política do café-com-leite e idealismos extravagantes. Que o diga Oliveira Viana. José Bonifácio, grande santista, que vivia na Europa e para cá trouxe as ideias reformistas necessárias ao Brasil. Seu livro Apontamentos, sobre política, escrito em Paris após 1822, merece nossa atenção até hoje. Mas é incrível como ele não abominou a escravidão.
O nosso atraso em abolir a escravidão, por todas as razões cabíveis, afeta nossa cultura até hoje. O senhor de escravo ainda está presente no nosso meio.
Talvez a busca do idealismo dissociado da nossa realidade tenha sido o nosso maior mal.
É muito difícil apontar uma causa; o que temos é uma variedade de causas mal relacionadas e sem definição de rumos a tomar.
Temos como mérito normalmente ingressar nos muitos clubes de "Amigos para Admiração Mútua". Quanta cretinice.
Mário de Andrade tinha razão em nos brindar com o seu Macunaíma, em 1922. E o que dizer dos novos Macunaímas criados pelas lutas ideológicas, se é que podemos chamar isso de lutas, afastados como estamos dos centros de poder, macaqueando aqueles que efetivamente travam a batalha do poder? Mímicos despreparados e sem humor.
Entre os novos Macunaímas estão as grandes prima-donas das vaidades incomensuráveis, como ?as areias do deserto de Patolo?, para quem é tão pequeno que as quer ter e tão vil que as merece.
Na volta de Fernando de Noronha, paramos em Salvador, onde ? toda a família reunida ? tomamos um sorvete tão gostoso que não dava vontade de parar.
Nos deliciamos de sorvete até a língua congelar...