Ao transformar em livro meus depoimentos ao CPDOC da FGV, abrangendo um período que vai de 1928 até nossos dias – quase 80 anos – tornando-o disponível ao público, pareceu-me de interesse mostrar como penso no fim desta caminhada.
Nasci logo após a ocorrência de fatos mundiais de grande relevância. A Revolução Bolchevique de 1917, o término da Primeira Guerra Mundial em 1918 e, posteriormente, a Grande Depressão de 1929, que culminou na Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945.
O meu nascimento coincide com o fim da República Velha no Brasil e a Revolução da Aliança Liberal, que nos trouxe Getúlio Vargas e o período que cobre a Revolução Constitucionalista de 1932, a Intentona Comunista de 1935 e a Ação Integralista que detona o Estado Novo em 1938. Longo período da ditadura Vargas, no primeiro período de seu governo, e sua deposição em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial.
Pode-se dizer que o advento da Segunda República em 1930 dá início a um novo ciclo histórico, que deságua nos dias atuais.
Mas o que julgo importante observar é como os acontecimentos mundiais repercutiram e continuam repercutindo no Brasil até hoje, e como influenciaram todos os momentos de minha vida.
O pensamento marxista, a doutrina positivista, oriundos do Iluminismo, no século XVII, a Reforma e a Contra-Reforma, no fim do século XVI, continuam a repercutir no momento atual, como também as outras duas religiões irmãs abraâmicas (2), o judaísmo e o islamismo.
Toda essa remota herança vem carregada de maniqueísmo, o mesmo dos meus tempos de UNE, o mesmo que hoje gera conflitos entre xiitas e sunitas. Encerrada a minha fase de certezas, de crenças inabaláveis, e com o fim das utopias, o sentimento que sobrevém é o de solidão.
Sinto que estamos no fim de um longo período, cujo nascimento provavelmente se deu com os pré-socráticos, atravessando o paganismo, o monoteísmo – principalmente o cristianismo – o Humanismo , o Iluminismo, o Modernismo, desembocando no princípio do século XXI sem respostas para os anseios expressos em todas as utopias e religiões que transpuseram os séculos e cujas marcas permanecem ainda vivas no presente.
Karl Popper faz uma análise profunda dos efeitos maléficos das utopias, de Platão a Marx, nas sociedades abertas.(1)
Depois de passarmos por vários períodos da história onde teve força a idéia do apocalipse, levada ao ridículo em curto espaço de tempo, nos deparamos hoje com um fenômeno que diverge daqueles que geraram visões apocalípticas no passado: o aquecimento global. Entrelaçado com ele presenciamos a crescente violência entre os seres humanos e contra a natureza. Tudo isso culmina na profunda descrença nos fundamentos de uma civilização global.
A diminuição de adeptos do cristianismo, expoente deste Ocidente, e o desenvolvimento econômico da Ásia, com China e Índia na liderança desse crescimento, o surgimento do terrorismo, ligado ou não ao islamismo, mas sem dúvida trazendo o Islã para o nosso dia-a-dia, são sinais claros do declínio do Ocidente, e fonte de inspiração de novas idéias políticas. Veja-se, por exemplo, nas duas nações citadas, China e Índia, a maior economia e a maior democracia emergentes: maior crescimento econômico com regime totalitário comunista e regime econômico capitalista selvagem; maior democracia eleitoral por número de eleitores do mundo, convivendo num regime religioso de castas. Como detectar as raízes dessas formas híbridas de convívio e como situar esses hibridismos num contexto universal? Onde vislumbrar a conexão desses sistemas – comunismo igualitário e capitalismo selvagem – com o Iluminismo, quer liberal, democrata ou marxista? Necessitamos de muita abertura para a compreensão de tudo isso e, sobretudo, tolerância.
Edward Said nos ensina que precisamos aprender a enxergar além da visão ocidental. Em suas reflexões, ele aponta para o erro em ver o Oriente Médio apenas com os olhos de europeus colonizadores e não buscar entendê-lo sob a visão a de um palestino, de um árabe, de um asiático ou africano.
Os EUA querem impor sua democracia criando um modelo no Iraque através da guerra que vemos se desenrolar diariamente. Julgam talvez que nos tenhamos esquecido de como o Iraque foi criado na Conferência da Paz em Paris, em 1921, pelos países colonizadores, baseados em dados superficiais colhidos pelo Serviço de Inteligência do Império Britânico, com sede no Cairo, obtidos por Lawrence da Arábia e Gertrude Bell, entre outros.
Não aprendendo a lição, na paz após a Segunda Guerra, criamos o Estado de Israel e continuamos teimosamente a ver o mundo só pela ótica ocidental. E esquecemos-nos dos palestinos. Os palestinos ainda não possuem um país onde possam abrigar seu Estado.
A Arábia é a Arábia: é o cadinho de raças, etnias, religiões abraâmicas e rivalidades tribais. Não entendemos o Oriente Médio, o sul da Ásia, a Coréia, o Vietnã, que, como a África, foram produto da mente e determinação dos vencedores colonialistas, os quais dividiram entre si o butim da conquista, num Ocidente míope que fomentou e continua fomentando os grandes conflitos de hoje.
Falta à maior potência dos nossos dias, os Estados Unidos, capacidade política, visão ética – e, acima de tudo, interesse – para pôr fim aos grandes problemas sobre os quais eles têm grande responsabilidade.
Nova realidade deve se desenhar para o amanhã. Entendo que só podemos vislumbrar o futuro se formos capazes de ultrapassar a herança cultural do nosso passado, as culturas greco-romana e judaico-cristã, ou seja, a cultura das religiões abraâmicas(2) – o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, tão presentes em nossos dias e tão determinantes na visão de nosso futuro.
Vislumbrar significa imaginar o modelo de uma nova sociedade global, sem os equívocos da utopia humanista e sua vertente iluminista, como, por exemplo, o sistema soviético, que foi um artefato do projeto iluminista idealizado por Marx e implementado pela Revolução Bolchevique de 1917, na Rússia. Vimos como acabou essa utopia.
Vislumbrar uma nova sociedade global implica abrir mão desse paradigma de progresso econômico devastador que impera hoje e buscar um modelo de desenvolvimento que respeite diferenças culturais, contemple todos os seres humanos e volte sua atenção para o equilíbrio ecológico, para os nossos semelhantes e a natureza. Implica reconhecer os limites do nosso planeta, em termos globais, e não apenas nacionais, ultrapassando o conceito de Estado-Nação.
Malthus previu esses limites ao apontar os problemas do crescimento populacional e a capacidade de provermos alimentos para todos; nisto errou, pois a tecnologia ampliou em muito essa capacidade, mas acertou ao mostrar os inconvenientes do crescimento populacional, levando em conta os limites físicos do nosso planeta. Como James Lovelock notou em The Ages of Gaia (p. 178-9), se não ultrapassássemos 500 milhões de habitantes no planeta, certamente não teríamos os problemas decorrentes do aquecimento global ou do término da era do petróleo. Como a população mundial caminha para seis bilhões de pessoas, com mais de 10 bilhões de cabeças de gado bovino e ovino, e mais de seis bilhões de cabeças de aves, não temos definitivamente o mesmo espaço de liberdade para manejar os recursos do planeta como se fôssemos meros 500 milhões.
O racionalismo típico do Iluminismo não fornece mais respostas para o presente. Vislumbramos que não serão dogmas nem ideologias que nos darão respostas, como não nos deram nos séculos anteriores, e que as utopias perdem, neste início de milênio, como a Flauta Mágica de Mozart, seu poder de encantamento. Devemos considerar nossa vulnerabilidade como seres humanos do mesmo modo como vemos a vulnerabilidade de outros animais, que correm perigo de extinção tanto quanto os dinossauros correram.
Necessitamos de humildade, por isso o meu santo predileto é Santo Afonso de Ligório, irmão franciscano, de rara inteligência e sabedoria, músico e poeta, que devotou sua vida aos oprimidos e, no entanto, humilde, rezava: “Senhor, desconfiai de Afonso, porque ainda hoje ele irá lhe trair”.
Julgo que humildade e sustentabilidade serão os atributos necessários para iniciarmos o esboço de uma nova civilização global. Sustentabilidade implica empreendermos uma série de ações globais que exigem total reformulação do conceito de nacionalidade para várias áreas de atuação humana. Implica revermos os conceitos sociais de cidadania e estabelecermos as condições mínimas de vida a que cada ser humano tem direito, de forma que, por princípio, subsídios do Estado sempre tenham uma contrapartida do cidadão para evitar ao máximo o assistencialismo.
Umas das grandes diferenças entre nossas antigas heranças utópicas, desde a República de Platão até o Iluminismo, o Modernismo e mesmo o Pós-Modernismo, é que antes se buscavam formas idealizadas de aprimorar o convívio humano. Hoje, o grande desafio é a sobrevivência dos seres humanos sem entrar em choque com a sobrevivência do planeta Terra.
Não se trata apenas do aquecimento global e a previsível catástrofe. Trata-se da exaustão dos recursos do planeta para o número de habitantes vivendo ou almejando viver num padrão de vida da chamada classe média, que é o anseio de bilhões de outros seres humanos que não atingiram esse nível. Isso se torna política, econômica, ecológica e espacialmente inviável. Não são muitas as áreas terrestres habitáveis, tanto por razões climáticas, de solo, de topografia quanto de cobertura e pragas. Estamos morando verticalmente, e os custos de infra-estrutura para habitação já são altos demais. Água potável torna-se escassa e cara. Lixo é problema.
A reforma educacional, prioritária, se considerarmos o Brasil em particular, requer a indispensável reciclagem dos professores de todos os níveis, o que representa o maior desafio para o poder público. E uma das grandes questões mundiais talvez seja o transporte individual, com todos os graves problemas dele decorrentes.
A antiga competição entre capitalismo e socialismo foi substituída pelas formas diversas de capitalismo que lançam mão de todos os recursos para triunfar umas sobre as outras.
É inesgotável a relação dos problemas aguardando solução, enquanto governantes ineptos e medíocres a tudo assistem como se nada estivesse requerendo emergência.
Não tenho a intenção de fazer comparações justificadas entre estes grandes períodos históricos, mas dar ligeiríssimas pinceladas para ativar nossa memória.
Quando terminava o ginásio, convivi com o gasogênio e o racionamento de combustível.
Em 1951, em viagem pela Escócia e Inglaterra, viajei com cartões de racionamento, para agasalhos, em pleno inverno. Desde 1939, o inglês não comia carne bovina. Sabão era feito em casa, de restos de sebo de açougues. Minha avó cerzia as meias dos homens da casa todas as noites. Os sapatos eram recuperados com a reposição de meia-sola, sola inteira, saltos e cordões.
Como ministro, reformulei, com a criação do CONCEX, o comércio exterior brasileiro, quando tínhamos aproximadamente 1,3% do comercio mundial, em 1966. Hoje, mais de 40 anos depois, temos menos de 1% desse comércio. A Holanda e a Coréia do Sul eram próximas do Brasil em volume de transações externas. E agora como estamos? E a política? Para onde estamos indo? O Bolsa-Família é a solução? Haverá apagão? Haverá apocalipse? Quem será o próximo presidente? Não sei como responder a estas perguntas, mas de uma coisa estou certo: a solução para nós e toda a humanidade vai muito além dessas questões.
As relações humanas continuam a ser o maior obstáculo para a criação de uma civilização livre das contradições e dos trágicos enganos cometidos até agora, apesar de todas as utopias desde Platão até Marx, do advento de correntes religiosas como o cristianismo, o islamismo, o budismo, o hinduísmo e tantas outras que não lograram a construção de uma convivência construtiva e saudável entre os seres humanos. É realidade palpável nossa evolução nas ciências e tecnologias, assim como é óbvio nosso lentíssimo progresso na ética e nas ciências sociais, não obstante os ideais religiosos e filosóficos que atravessaram os séculos, desde os pré-socráticos, passando por Confúcio, Cristo, até os pensadores modernos.
Precisamos de nova política, de nova visão para o convívio humano e com a natureza, de nova “cabeça” pensante que tenha como leitmotiv o social, a tolerância e a preservação do meio ambiente.
E assim continuamos vivendo, não sei até quando, já que meu tempo é curto.
E meus filhos, meus netos e, agora, minha bisneta? Como ficam eles e as novas gerações? Como fica a humanidade?
Não sei, mas aprendi no decorrer da minha vida que o ser humano é por natureza imperfeito, e é com essa imperfeição que o futuro terá que ser vivido, em busca da tolerância, da paciência, da humildade, da perseverança, da dedicação, do conhecimento e da solidariedade.
Assim, retomo a velha utopia, que tentei abandonar.
Paulo Egydio
(1) The Open Society and its Enemis. Karl Popper. London: Routledge, 1973.
(2) Com origem em Abraão, um dos profetas do Velho Testamento, e também profeta do Islão. Abraão: Uma Jornada ao Coração de Três Religiões. Bruce Feiler, tradução de Maria Luiza Newlands Siveira. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.